Para algumas mulheres, o orgasmo parece acontecer naturalmente. Para outras, chegar lá pode ser difícil, demorado ou até impossível, mesmo quando existe desejo, excitação e prazer durante a relação.
E é justamente aí que surge uma dúvida bastante comum: “Se eu sinto vontade e gosto de transar, por que não consigo gozar?”
A resposta não é única.
O orgasmo é uma resposta complexa que envolve aspectos físicos, psicológicos, emocionais e relacionais. Por isso, quando existe dificuldade para chegar ao orgasmo, é importante olhar para a sexualidade como um todo e não apenas para o que está acontecendo durante a penetração.
A anorgasmia é caracterizada por orgasmos ausentes, muito raros, significativamente menos intensos ou marcadamente atrasados, mesmo quando existe excitação sexual e estímulo adequado.
Ela pode se apresentar de diferentes maneiras.
É importante destacar: não ter orgasmo em todas as relações sexuais não significa automaticamente ter anorgasmia.
A resposta sexual varia entre pessoas e também pode variar para a mesma mulher ao longo da vida. Para que exista um transtorno, a dificuldade precisa ser persistente, ter pelo menos 6 meses de duração e estar associada a sofrimento ou prejuízo significativo.
O orgasmo feminino depende da interação entre estímulos físicos, funcionamento do corpo, emoções, pensamentos, experiências anteriores, contexto sexual e relacionamento.
Por isso, a anorgasmia pode ter causas psicológicas, relacionais, culturais, comportamentais e físicas, que podem aparecer isoladamente ou combinadas.
Não. A mulher pode sentir bastante prazer durante uma relação sexual e ainda assim não atingir o orgasmo.
Da mesma forma, ela pode ter desejo, excitação e lubrificação e ainda apresentar dificuldade orgástica.
Por isso, orgasmo não é sinônimo de prazer, e ausência de orgasmo não significa ausência de prazer.
Essa distinção é importante porque transformar o orgasmo no único indicador de uma relação sexual satisfatória pode aumentar ainda mais a pressão sobre a mulher.
Uma mulher pode passar anos tendo relações sexuais sem realmente conhecer quais estímulos despertam mais prazer em seu corpo. Isso acontece, em parte, porque muitas mulheres recebem pouca educação sobre anatomia e prazer sexual.
Existe muita expectativa sobre o que uma mulher “deveria” sentir, mas pouco espaço para descobrir como o prazer funciona para ela.Esse é um ponto fundamental. A penetração vaginal, sozinha, não é suficiente para que muitas mulheres tenham orgasmo.
O clitóris possui papel central na resposta orgástica feminina, e muitas mulheres precisam de estimulação direta ou de uma combinação de estímulos para chegar ao orgasmo.
Por isso, uma mulher que não tem orgasmo durante a penetração não necessariamente apresenta uma disfunção. Às vezes, ela simplesmente está recebendo um tipo de estímulo que não é suficiente para o seu corpo.
Isso também mostra por que a ideia de que “se a mulher não goza durante a penetração, existe algum problema com ela” é equivocada.O orgasmo exige atenção às sensações corporais, mas muitas mulheres entram na relação sexual prestando atenção justamente no contrário.
“Será que vou conseguir?”
“Será que estou demorando?”
“Será que ele está cansado?”
Se a experiência sexual se transforma em uma avaliação de desempenho, pode ficar mais difícil se entregar às sensações. A ansiedade, o estresse e outras condições emocionais podem contribuir para dificuldades relacionadas ao orgasmo.
E isso pode criar um ciclo: tentativa de atingir o orgasmo → cobrança → ansiedade → dificuldade de se entregar às sensações → ausência de orgasmo → mais cobrança na próxima relação.
A forma como uma mulher aprendeu a enxergar sexo e prazer também pode influenciar sua sexualidade.
Mensagens como: “Mulher não deve demonstrar desejo.”, “Uma mulher decente não pensa nessas coisas.”, “É errado se masturbar.” podem permanecer presentes mesmo quando a pessoa, racionalmente, já não concorda com elas e gerar sentimento de culpa na hora da relação, dificultando a entrega e a conexão com o momento.
Questões culturais, religiosas, culpa, vergonha e experiências de educação sexual restritiva podem participar das dificuldades relacionadas ao orgasmo.
Isso não significa culpar a família, a religião ou a cultura. Significa compreender que nossa sexualidade também é construída a partir das mensagens que recebemos ao longo da vida.
O orgasmo também pode ser influenciado pelo contexto em que a relação sexual acontece.
Falta de intimidade, conflitos não resolvidos, dificuldade para conversar sobre sexo, insegurança com o parceiro, quebra de confiança e dificuldade para comunicar preferências podem contribuir para problemas orgásticos.
Isso não significa que uma mulher precise estar em um relacionamento perfeito para ter orgasmos. Mas sentir-se segura para dizer “assim eu gosto”, “mais devagar”, “continua” ou “não é desse jeito” pode fazer uma diferença importante na experiência sexual.
Alguns medicamentos podem afetar a resposta sexual e dificultar o orgasmo.
Entre eles estão alguns antidepressivos, especialmente os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), além de determinados medicamentos para pressão arterial, antipsicóticos e anti-histamínicos.
Por isso, quando uma mulher que anteriormente tinha orgasmos passa a apresentar dificuldade depois de iniciar ou modificar um medicamento, essa informação é importante na avaliação.
Isso não significa que ela deva interromper o medicamento por conta própria. Qualquer alteração deve ser discutida com o profissional que o prescreveu.Diabetes, esclerose múltipla e outras condições de saúde podem afetar a resposta sexual. Alterações hormonais, menopausa, mudanças após o parto e determinadas condições ginecológicas também podem interferir na excitação, sensibilidade, lubrificação e, consequentemente, no orgasmo.
Além disso, dor durante a relação, ressecamento vaginal e outras dificuldades sexuais podem acabar tornando a experiência menos prazerosa e dificultar o orgasmo.
O tratamento depende dos fatores envolvidos em cada caso.
A terapia sexual pode trabalhar aspectos como educação sexual, conhecimento do próprio corpo, comunicação com o parceiro, ansiedade, crenças sobre sexualidade e dificuldades relacionadas à experiência sexual. Abordagens psicoterapêuticas também podem ser utilizadas quando existem fatores emocionais ou relacionais envolvidos.
Em alguns casos, exercícios de exploração corporal e masturbação dirigida fazem parte do processo terapêutico. Mudanças na forma de estimulação e o uso de recursos que aumentem a estimulação clitoriana também podem ser considerados.
Quando existe uma condição médica ou um medicamento contribuindo para a dificuldade, essa questão também precisa ser avaliada por um profissional de saúde.
Ou seja: não existe uma única receita para tratar a anorgasmia.
O tratamento precisa partir da compreensão de por que aquela mulher está tendo dificuldade.
Se a dificuldade para atingir o orgasmo é persistente e causa sofrimento, frustração, insegurança ou interfere na vida sexual, pode ser importante buscar ajuda profissional.
Também vale procurar avaliação quando uma mulher que anteriormente tinha orgasmos percebe uma mudança significativa e sem explicação aparente.
A anorgasmia não é simplesmente “não conseguir gozar”. Por trás dessa dificuldade pode existir uma história de pouca educação sexual, desconhecimento do próprio corpo, ansiedade, vergonha, experiências negativas, questões relacionais, uso de medicamentos ou fatores físicos.
E, em muitos casos, não existe apenas uma causa. Por isso, uma investigação individualizada deve ser conduzida pelo profissional que realizará o tratamento.
Antes de gerar culpa e angustia pelo desempenho sexual, vale se perguntar “O que está dificultando que eu me entregue ao meu prazer?”
Entender essa resposta pode ser o primeiro passo para deixar de enxergar o orgasmo como uma prova que precisa ser cumprida e começar a construir uma relação mais consciente, confortável e livre com a própria sexualidade.
Se você se identificou com este conteúdo e sente que a dificuldade de chegar ao orgasmo tem afetado sua relação com o próprio corpo ou com a sua vida sexual, a terapia sexual pode ajudar a compreender o que está por trás dessa dificuldade e construir novos caminhos para o prazer.
Na Iluare, você encontra um espaço seguro e sem julgamentos para falar sobre sexualidade e entender melhor a sua própria experiência. Entre em contato com a nossa equipe e saiba como podemos te ajudar.